quinta-feira, 26 de abril de 2012

O rio

                                                                

O Rio

Da mata no seio umbroso,
No verde seio da serra,
Nasce o rio generoso,
Que á a providência da serra,
Nasce humilde, e pequenino,
Foge ao sol abrasador,
É um fio d’água, tão fino,
Que desliza sem rumor.

Entre as pedras se insinua,
Ganha corpo, abre caminho,
Já canta, já tumultua,
Num alegre burburinho.

Agora o sol,  que o prateia,
Todo se entrega, a sorrir;
Avança, as rochas  ladeia,
Some-se, torna a surgir.

Recebe outras águas, desce,
As encostas de uma em uma,
Engrossa as vagas, e cresce,
Galga os penedos, e espuma.


Agora indômito e ousado,
Transpõe furnas e grotões,
Vence abismos, despenhados,
Em saltos e cachoeirões.

E corre, galopa. Cheio,
De força; De vaga em vaga,
Chega ao vale, larga o seio,
Cava o leito, o campo alaga...
Expande-se, abre-se, ingente,
Por  cem léguas a cantar,
Até que cai, finalmente,
No seio vasto do mar...

Mas na triunfal majestade,
Dessa marcha vitoriosa,
Quanto amor, quanta bondade,
Na sua alma generosa!

A cada passo que dava,
O nobre rio feliz,
Mais uma arvore criava,
Dando vida a uma raiz.

Quantas dádivas, quantas,
Esmolas pelos caminhos!
Matava a sede das plantas,
E dos passarinhos...

Fonte de força e fartura,
Foi bem, saúde e pão:
Dava as cidades frescura,
Fecundidade ao sertão...

É um nobre exemplo sadio,
Nas suas águas se encerra;
Devemos ser como o rio,
Que é providência da terra:

Bendito aquele que é forte,
E desconhece o rancor,
E em vez de servir a morte,
Ama a vida, e serve o amor!

Olavo Bilac

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